Nível do mar pode subir até 13 cm até 2100 e ameaçar litoral do Ceará, alerta ONU
O nível do mar pode subir entre 9 e 13 centímetros até 2100, segundo um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU). A projeção considera diferentes cenários de aquecimento global e aponta o derretimento das geleiras como um dos principais fatores para o avanço dos oceanos. No Ceará, onde municípios do litoral já convivem com erosão e perda de estruturas, o cenário aumenta a preocupação com áreas urbanizadas e ecossistemas costeiros.
O estudo foi elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e considera cenários em que o aquecimento global fique entre 1,8°C e 3°C até o fim do século.
A elevação projetada para os oceanos não representa apenas uma mudança no nível da água. O avanço do mar pode aumentar a erosão das praias, reduzir áreas disponíveis para ecossistemas costeiros e ampliar a vulnerabilidade de construções localizadas próximas à faixa litorânea.
Nível do mar pode subir até 13 cm até 2100
De acordo com o relatório, as geleiras espalhadas pelo mundo, sem considerar as grandes calotas de gelo da Antártida e da Groenlândia, podem perder entre 25% e 40% de sua massa ao longo do século XXI.
O derretimento libera grandes volumes de água que chegam aos oceanos e contribuem para a elevação do nível médio do mar. O processo ocorre em paralelo a outros efeitos relacionados ao aquecimento do planeta, tornando a mudança climática um fator de longo prazo para as regiões costeiras.
O Pnuma também alerta que os impactos não devem ficar restritos ao avanço gradual da água. O aumento do nível do mar pode acelerar a erosão e reduzir o espaço disponível para ambientes como manguezais e áreas alagadas costeiras.
Esses ecossistemas têm importância ambiental e também funcionam como áreas naturais de proteção contra determinados impactos associados à dinâmica costeira. Quando há redução dessas áreas, aumenta a exposição de regiões ocupadas pela população e por atividades econômicas.
Litoral do Ceará já sente os efeitos da erosão costeira
No Ceará, o problema não é apenas uma projeção para o futuro. Municípios da faixa litorânea já enfrentam situações relacionadas ao avanço do mar e à erosão.
Um dos casos citados na apuração é o da praia da Peroba, em Icapuí, no litoral leste do Estado. A força das águas já provocou destruição de edificações e também está associada a problemas que atingem a infraestrutura local, incluindo quedas de energia.
O cenário mostra como a erosão costeira pode ultrapassar os limites da faixa de areia e atingir diretamente estruturas construídas próximas ao mar.
A situação também evidencia uma dificuldade enfrentada por municípios litorâneos: medidas pontuais podem não ser suficientes quando o processo de erosão se mantém ou se intensifica.
Em áreas onde construções já estão próximas da faixa de avanço das ondas, intervenções emergenciais podem oferecer proteção temporária, mas não necessariamente resolvem a dinâmica que provoca a perda de terreno.
Aquiraz tem estruturas ameaçadas pela força das ondas
Em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, a força das ondas também provocou danos em uma estrutura criada para tentar conter o avanço da água.
Uma parede feita com sacos de areia acabou derrubada pela ação das ondas. Com a estrutura de contenção comprometida, o avanço do mar passou a ameaçar estruturas de barracas localizadas na região do Pontão do Iguape.
O episódio representa, em escala local, um dos desafios relacionados à ocupação de áreas costeiras: a necessidade de conciliar atividades econômicas, ocupação urbana, preservação ambiental e uma dinâmica natural que pode ser alterada pela elevação do nível dos oceanos.
Para o Ceará, os efeitos podem ser particularmente relevantes porque o Estado possui uma extensa faixa litorânea, com cidades, comunidades, equipamentos turísticos e atividades econômicas concentrados próximos ao mar.
A erosão também pode afetar praias que são importantes para o turismo e para a economia de comunidades costeiras. Além da perda física da faixa de areia, o avanço das águas pode atingir vias, imóveis, estabelecimentos comerciais e estruturas utilizadas por moradores e visitantes.
Aquecimento global pode chegar a 2,6°C até o fim do século
A projeção de aumento do nível do mar está diretamente relacionada ao comportamento da temperatura média do planeta.
Segundo o relatório do Pnuma, o planeta já está aproximadamente 1,4°C mais quente em comparação com os níveis do período pré-industrial. O estudo aponta que o limite de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris não deverá ser alcançado como meta de longo prazo.
Nas projeções apresentadas, o aquecimento pode chegar a 1,8°C em um cenário considerado mais favorável. Em uma trajetória de maiores emissões, a temperatura poderia alcançar 2,6°C até 2100.
O Acordo de Paris foi firmado em 2015 com o objetivo de fortalecer a resposta internacional às mudanças climáticas. Entre as medidas previstas estão a redução das emissões de gases de efeito estufa e a adoção de estratégias de adaptação aos impactos climáticos.
A diferença entre os cenários de temperatura é importante porque cada fração adicional de aquecimento pode ampliar os impactos sobre os sistemas naturais e sobre áreas ocupadas pela população.
O relatório destaca ainda que a temperatura global vem aumentando em ritmo que dificulta a permanência dentro do limite estabelecido internacionalmente.
Elevação do nível do mar pode continuar por séculos
Mesmo que o aquecimento global seja reduzido, os efeitos sobre os oceanos não desaparecem imediatamente.
O Pnuma aponta que a elevação do nível do mar pode continuar por muitos séculos, mesmo diante de uma eventual redução das temperaturas globais. Isso ocorre porque os sistemas climáticos respondem lentamente às mudanças acumuladas.
Na prática, significa que as decisões tomadas nas próximas décadas podem influenciar a intensidade dos impactos futuros, mas parte das consequências do aquecimento já incorporado ao sistema climático permanecerá por um longo período.
O relatório também destaca que uma eventual reversão do aquecimento depois de ultrapassados determinados níveis exigiria emissões líquidas negativas de gás carbônico mantidas durante períodos prolongados.
Para regiões costeiras como o Ceará, o cenário reforça a necessidade de planejamento de longo prazo. A adaptação não envolve apenas obras emergenciais quando a água atinge construções. Também passa pelo ordenamento da ocupação do litoral, proteção de ecossistemas e avaliação dos riscos para áreas já urbanizadas.
A elevação do nível do mar, portanto, deve ser observada como um problema ambiental e também como uma questão de infraestrutura, economia e planejamento urbano.
Os casos registrados em Icapuí e Aquiraz mostram que os impactos associados à dinâmica costeira já fazem parte da realidade de municípios cearenses. Com a perspectiva de aumento do nível médio dos oceanos nas próximas décadas, o desafio será reduzir a vulnerabilidade das áreas ocupadas e preservar os ambientes naturais capazes de ajudar na proteção da costa.
