Dólar abaixo de R$ 5 barateia comida e remédios, mas prejudica exportações
A queda de 9% do dólar este ano derrubou a cotação da moeda para menos de R$ 5 pela primeira vez desde 2024. Se a tendência se mantiver, produtos do dia a dia, como pão, remédios e celulares, poderão ficar mais baratos ao longo do ano, embora a guerra no Irã possa compensar algumas reduções. O prejuízo deve ficar com as empresas exportadoras, que devem perder competitividade no exterior e até cortar empregos.
O que aconteceu
Os produtos devem ficar mais baratos na padaria e no supermercado. Como o Brasil importa muita farinha, pães e massas podem baratear nos próximos meses. Azeite, vinhos e queijos importados também tendem a ficar mais em conta.
No campo, o dólar mais baixo alivia os custos de produção, mas a guerra no Irã atrapalha. Como muitos fertilizantes e agrotóxicos são importados, esses produtos chegariam mais baratos ao Brasil, reduzindo o gasto para produzir frutas e verduras. O problema é que a guerra prejudicou o fornecimento de fertilizantes, como a ureia. Cerca de 40% da ureia importada pelo Brasil passa pelo Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irã. O produto havia aumentado 50% até o final de março, para US$ 757 a tonelada, segundo a consultoria StoneX.
A queda do dólar ajuda a frear a inflação e aumenta o poder de compra. Isso ocorre porque o Brasil importa tanto produtos inteiros quanto peças usadas na produção de bens essenciais. “O dólar mais barato reduz custos para as importadoras de insumos, o que reflete em preços menores para o consumidor”, explica Jorge Ferreira dos Santos, economista e professor do curso de Administração da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).
Câmbio reduz pressões inflacionárias e pode abrir espaço para o Banco Central reduzir os juros, que foi abalada por incertezas internacionais, como o conflito no Irã e a alta do petróleo.
Jorge Ferreira dos Santos, professor da ESPM
Celular, remédios e viagens
O mesmo deve acontecer com os produtos eletrônicos. Componentes de celular, notebook e hardware são cotados em dólar. “Ficam mais baratos esses eletrônicos, cujo custo depende da cotação ao longo da cadeia”, diz Santos.
Até medicamentos podem baratear. Como muitos insumos farmacêuticos são importados, o preço final dos remédios fabricados no Brasil pode cair, especialmente antibióticos, medicamentos de uso contínuo e produtos de maior complexidade tecnológica. “Além disso, equipamentos hospitalares e médicos e até cosméticos com componentes importados tendem a ter alívio de preços ao longo do tempo, embora com defasagem”, diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
Mesmo cotados em dólar, combustíveis devem ser menos afetados em razão do conflito no Oriente Médio. A Petrobras usa os preços internacionais do petróleo e seus derivados como base para precificar seus combustíveis no Brasil. O dólar mais fraco impacta diretamente na refinaria, mas a guerra vem subindo o preço do petróleo no exterior. Ontem, sua cotação voltou a beirar os US$ 100.
Se energia e commodities sobem por causa da guerra, os custos aumentam, e o dólar mais baixo apenas ameniza, mas não anula essa pressão.
Ítalo Teles, fundador e sócio do Grupo Nexco
A redução dos preços na gôndola levará algum tempo. Isso porque, antes de repassar as reduções, as companhias precisam vender os estoques comprados quando o dólar estava mais alto.
Viagens também entram na lista. Gastos com viagens ao exterior, como hospedagens e compras, ficam mais baratos para quem ganha em real. As passagens, no entanto, devem ficar até 36% mais caras este ano, segundo projeção da Warren Investimentos. Por causa da guerra, a Petrobras anunciou no começo do mês reajuste de 54,8% no querosene de aviação. Para reduzir esse impacto, o governo anunciou um pacote de até R$ 9 bilhões em crédito para companhias aéreas e zerou as alíquotas de PIS e Cofins incidentes sobre esse tipo de combustível.
Carro novo e sua manutenção podem baratear. Veículos fabricados no Brasil usam muitas peças importadas: a queda do dólar deve segurar os preços de carros novos e até os custos de manutenção. “Bens duráveis importados, eletrodomésticos, autopeças e carros importados também tendem a ter redução de valores”, diz o professor.
A lógica vale ainda para serviços contratados no exterior. É o caso de assinaturas internacionais, cujos preços em dólar serão menores depois de convertidos para reais.
Mas há efeitos indiretos que podem encarecer determinados produtos, sobretudo quando o dólar mais valorizado reduz a competitividade da produção nacional, levando empresas a ajustar margens ou reduzir escala. Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos.
Exportadores serão prejudicados
Por outro lado, a valorização do real traz efeitos colaterais a setores exportadores. “O real apreciado reduz a competitividade das exportações brasileiras, tornando esses produtos mais caros no exterior e reduzindo os lucros das empresas”, diz Lima.
Além disso, o dólar barato pode desincentivar a produção local em alguns segmentos, aumentando a dependência externa no médio prazo.
Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos
Isso pode aumentar o desemprego em segmentos muito exportadores, como a indústria. Jorge Ferreira dos Santos, da ESPM.
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