ZPE: Quando o desenvolvimento global começa no território
Mais do que um regime voltado às exportações, as Zonas de Processamento de Exportação
podem transformar realidades locais, gerar oportunidades e preparar regiões inteiras para a
economia do futuro.
Falar em desenvolvimento econômico costuma nos levar a grandes indicadores, como Produto Interno Bruto, exportações e atração de capital. Todos são relevantes, mas não respondem, isoladamente, à pergunta essencial: de que maneira o crescimento alcança a vida das pessoas? É nessa aproximação entre economia e território que as Zonas de Processamento de Exportação, conhecidas como ZPEs, revelam sua importância.
Em linguagem simples, uma ZPE é uma área especialmente preparada para receber empresas que produzem bens ou prestam serviços destinados ao mercado externo. Nesse espaço, elas encontram condições tributárias, aduaneiras e administrativas próprias para competir internacionalmente. Mais do que um regime de incentivos, a ZPE é uma política pública capaz de inserir regiões brasileiras nas cadeias globais de produção.
Sua força ultrapassa os limites onde os empreendimentos se instalam. Novas atividades produtivas
demandam infraestrutura, transporte, tecnologia, serviços, fornecedores e profissionais qualificados. Quando existe articulação entre empresas, governos, universidades e sociedade, forma-se um ecossistema econômico que fortalece negócios locais, estimula a qualificação profissional e favorece novas vocações produtivas. Assim, o investimento cria raízes e seus resultados permanecem no território.
A experiência da ZPE Ceará, integrada ao Complexo Industrial e Portuário do Pecém, demonstra como uma iniciativa dessa natureza pode reposicionar uma região. A transformação não se resume aos números das grandes empresas instaladas: também se expressa na formação de mão de obra, na expansão dos serviços, na atração de projetos e na projeção do Ceará como destino de investimentos. Diante da transição energética e da economia de baixo carbono, esse ambiente ainda pode conectar potencialidades locais às novas demandas globais.
Incentivo, porém, não é sinônimo automático de desenvolvimento. O êxito de uma ZPE exige governança, continuidade institucional e visão de longo prazo. Não basta avaliar quantas empresas serão atraídas ou quanto será exportado. É necessário observar quanto conhecimento permanecerá, quais vínculos serão construídos com a região e se os empregos criados oferecerão crescimento profissional e social.
Quando estruturadas com objetivos claros, as ZPEs constituem investimentos em competitividade,
diversificação produtiva e redução das desigualdades regionais. Sua importância deve ser medida não apenas pelo que sai de seus portões em direção ao exterior, mas pelo que floresce ao redor: conhecimento, renda, qualificação, novos negócios e perspectivas. É quando a economia global encontra o talento local que o desenvolvimento deixa de ser uma estatística e se torna uma experiência concreta na vida das pessoas.
SOBRE A AUTORA
ARTIGO DE OPINIÃO

Rebeca Queiroz • ZPE e desenvolvimento regional
Rebeca Moreira de Queiroz é advogada, mestre em Direito pela UFC, autora do livro ZPE Ceará e sócia-fundadora do
escritório RQA.
