Tentativa de compra, risco de guerra e embargos: a sempre tensa relação de EUA e Cuba
Ao contrário do que se pensa, as relações tensas entre Estados Unidos e Cuba não são recentes e nem nasceram após a Revolução de 1959; interesses políticos, econômicos e comerciais são mais antigos.
Neste começo de 2026, a administração de Donald Trump decidiu apertar o cerco a Cuba, interrompendo o fluxo de envio de combustíveis ao país. Isso somado a décadas de bloqueios e embargos comerciais tem intensificado a crise econômica na nação caribenha. A política de causar uma ruptura política na ilha que leve a uma troca de poder em favor de algum grupo mais aberto às leis do mercado é abertamente declarada pelo Secretário de Estado Marco Rubio, de ascendência cubana.
Um senso de urgência para a situação ficou nítido na reunião de Trump com lideranças latino-americanas em 7 de março, no anúncio do Escudo das Américas. O líder americano disse que Cuba está em “seus últimos momentos de vida”, revelando que Rubio vai dar atenção ao tema tão logo a situação no Irã dê sinais de resolução.
No entanto, as atenções e interesses americano na ilha não são novas, chegando até os primórdios da Guerra da Independência dos EUA. Desde então, já houve tentativas de comprar a ilha, intervenções militares, apoios e confrontos com governos e idas e vindas na política comercial.
Com a derrubada da ditadura de Fulgêncio Batista e a ascensão de Fidel Castro ao poder na ilha, Cuba virou uma peça-chave na Guerra Fria e um últimos bastiões do socialismo como forma de governo. O país está numa encruzilhada porque sempre dependeu de subsídios de adversários dos EUA, como a União Soviética, a Venezuela, a Rússia e a China, um fluxo que tem sido seguidamente reduzido, ou totalmente interrompido.
Relação comercial (1775–1823)
As treze colônias norte-americanas se rebelam contra a Grã-Bretanha e estabelecem os Estados Unidos, incentivando assim o comércio entre a nação recém-independente e Cuba. Em 1818, a Espanha abre portos cubanos para o comércio internacional, especialmente com os EUA. O comércio com Cuba substitui cada vez mais as relações comerciais espanholas com a ilha. No ano seguinte, os Estados Unidos adquirem a Flórida, que havia sido governada pela Espanha como parte da Capitania Geral de Cuba.
Interesse de aquisição (1823-1851)
Em abril de 1823, o Secretário de Estado John Quincy Adams escreve uma carta ao Ministro dos EUA na Espanha, Hugh Nelson, antecipando a probabilidade da anexação de Cuba pelos EUA dentro de meio século. Em 1848, o presidente James Polk oferece 100 milhões de dólares para comprar Cuba da Espanha, que recusa a oferta. Na sequência, o general Narciso López, nascido na Venezuela e exilado nos EUA, organiza três expedições abortadas para libertar Cuba da Espanha. O governo espanhol executa López e cinquenta e um membros de sua última expedição, em agosto de 1851.
Manifesto de Ostende e açúcar cubano (1854-1865)

Durante o governo do presidente Franklin Pierce, diplomatas americanos propõem novamente comprar Cuba da Espanha por até 120 milhões de dólares, em um documento secreto conhecido como Manifesto de Ostende. O plano falha quando o presidente Pierce o rejeita por ser politicamente inaceitável. Em 1865, Cuba já exporta 65% de seu açúcar para os Estados Unidos e apenas 3% para a Espanha.
Guerra de independência e migração (1868-1878)
Começa em 1958 a primeira guerra de independência cubana da Espanha, conhecida como a Guerra dos Dez Anos. No período, os EUA admitem 10 mil imigrantes de Cuba. Em 1869, o empresário espanhol Vicente Martínez Ybor, simpatizante da independência cubana, foge da ilha e estabelece uma fábrica de charutos em Key West, Flórida. Em 1875, Carlos Manuel de Céspedes y Céspedes, filho de um dos líderes da Guerra dos Dez Anos, é eleito o primeiro prefeito cubano de Key West. Com o fim da guerra, é fundada a primeira liga profissional cubana de beisebol.
José Marti nos EUA (1881-1895)

Em 1881, o jornalista, poeta e político cubano José Martí se estabelece na cidade de Nova York, onde escreve em espanhol e inglês para vários jornais latino-americanos e americanos. Cinco anos depois, a Espanha abole a escravidão em Cuba. Em 1892, Martí funda o jornal pró-independência Pátria, em Nova York, e o Partido Revolucionário Cubano. Em 1895, explode a terceira e última guerra de independência cubana da Espanha. Martí morre em batalha contra os espanhóis em Cuba, em maio.
Guerra, intervenção e República (1989-1902)

Em fevereiro de 1898, o USS Maine explode no Porto de Havana. Os Estados Unidos declaram guerra à Espanha em abril, conflito que se estende até agosto. A Espanha renuncia ao controle de Cuba (assim como de Porto Rico, Filipinas e Guam) por meio do Tratado de Paris, assinado em dezembro. No ano seguinte, os Estados Unidos iniciam a ocupação militar formal de Cuba. Em 1901, o Congresso dos EUA aprova a Emenda Platt, declarando que pode intervir militarmente em Cuba para defender os interesses dos EUA, e exige que a assembleia constituinte cubana incorpore o estatuto à nova constituição. Em junho, a assembleia constituinte adota a Emenda Platt. Em 20 de maio de 1902, os EUA encerram a ocupação militar de Cuba, inaugurando formalmente a república cubana. Tomás Estrada Palma, cidadão naturalizado dos EUA, é eleito o primeiro presidente de Cuba.
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