Saúde

Óculos de realidade virtual passam a ser aliados em terapias para TDAH e desenvolvimento cognitivo

Uma tecnologia que por muitos anos esteve associada, principalmente, ao universo dos jogos eletrônicos começa a ganhar espaço também na área da saúde. Nos consultórios de neuropsicologia, os óculos de realidade virtual passam a ser utilizados como ferramentas inovadoras no apoio a terapias voltadas ao desenvolvimento cognitivo, especialmente no tratamento de crianças e adolescentes diagnosticados com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

A proposta da tecnologia é criar ambientes virtuais interativos que simulam situações do cotidiano, permitindo que o paciente exercite habilidades importantes, como atenção, organização, planejamento e controle da impulsividade. A experiência imersiva torna o processo terapêutico mais dinâmico e favorece o engajamento, principalmente, entre pacientes mais jovens.

Segundo a neuropsicóloga Kamilla Gurgel, a grande vantagem da realidade virtual é aproximar o treino terapêutico de situações reais do dia a dia. “A tecnologia permite criar cenários muito próximos da realidade, nos quais o paciente precisa tomar decisões, manter o foco e lidar com diferentes estímulos. Isso ajuda no desenvolvimento de habilidades cognitivas que, muitas vezes, são desafiadoras para pessoas com TDAH”, explica.

Durante as sessões, o paciente utiliza os óculos de realidade virtual e participa de atividades estruturadas dentro de ambientes simulados. As tarefas são desenvolvidas para estimular funções executivas do cérebro, como memória de trabalho, atenção sustentada, planejamento e controle inibitório, áreas frequentemente afetadas em pessoas com dificuldades de atenção e autorregulação.
De acordo com Kamilla Gurgel, o ambiente virtual permite que o paciente experimente diferentes respostas e aprenda com os próprios erros sem a pressão de situações reais. “No espaço virtual, ele pode repetir as atividades várias vezes, testar estratégias e desenvolver soluções para determinados desafios. Esse processo fortalece o aprendizado e ajuda a construir novas formas de lidar com situações do cotidiano”, afirma.

Outro ponto importante é o aumento do engajamento durante o tratamento. Crianças e adolescentes com TDAH, frequentemente, apresentam dificuldade em manter o foco em atividades muito repetitivas ou abstratas. A realidade virtual transforma o exercício terapêutico em uma experiência interativa, estimulante e mais próxima do universo digital com o qual essa geração já está familiarizada.
Além da imersão que a tecnologia proporciona, os sistemas utilizados nas sessões também permitem o acompanhamento detalhado do desempenho do paciente. Durante as atividades, a plataforma registra dados, como tempo de resposta, nível de atenção e evolução nas tarefas, gerando relatórios que auxiliam o profissional a avaliar o progresso ao longo do tratamento.

Essas informações contribuem para um acompanhamento mais personalizado. “Com os dados gerados pela plataforma conseguimos observar com mais precisão quais habilidades estão evoluindo e quais ainda precisam de maior estímulo. Isso ajuda o profissional a ajustar o plano terapêutico de forma mais direcionada”, explica a especialista.

A tecnologia também abre espaço para novas possibilidades de acompanhamento clínico. Em alguns casos, o paciente pode utilizar o equipamento em casa, enquanto o profissional acompanha a atividade de forma remota, observando o desempenho e orientando as tarefas à distância.
Apesar das vantagens, a neuropsicóloga ressalta que a tecnologia deve ser entendida como uma ferramenta complementar dentro do processo terapêutico. Para a especialista, o acompanhamento profissional continua sendo essencial para interpretar comportamentos, orientar o paciente e integrar as habilidades treinadas no ambiente virtual com a vida real.

“Os óculos de realidade virtual não substituem a terapia. Eles ampliam as possibilidades de intervenção e tornam o processo mais concreto e envolvente. O papel do profissional é justamente transformar essas experiências em aprendizado que possa ser aplicado no dia a dia”, destaca Kamilla Gurgel.
Para a especialista, a incorporação de recursos tecnológicos na área da saúde mental representa um avanço importante no cuidado com pacientes que apresentam dificuldades de atenção, aprendizagem e regulação emocional. A expectativa é que, nos próximos anos, ferramentas como a realidade virtual se tornem cada vez mais presentes nos consultórios.

“Quando conseguimos unir conhecimento científico com tecnologias que fazem parte da realidade das novas gerações, o processo terapêutico se torna mais significativo. O objetivo final é sempre promover mais autonomia, desenvolvimento cognitivo e qualidade de vida para os pacientes”, diz Kamilla Gurgel.

Por Dalila Lima/OE

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