Fortaleza 300 anos: saúde da capital entra na era da tecnologia
No ano em que completa 300 anos de fundação, Fortaleza passa por transformações em diferentes áreas da gestão pública. Na saúde, um dos caminhos adotados pela administração municipal tem sido a incorporação de ferramentas tecnológicas para organizar o atendimento, ampliar o acesso a exames e tentar reduzir gargalos históricos da rede.
Sistemas automatizados de comunicação com pacientes, projetos de uso de Inteligência Artificial (IA) na gestão hospitalar e ampliação da oferta de exames diagnósticos estão entre as iniciativas mencionadas pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS). A estratégia busca enfrentar problemas recorrentes do sistema público, como filas por procedimentos especializados e faltas em consultas agendadas.
Em informações enviadas ao O Estado, a Secretaria Municipal da Saúde de Fortaleza afirma que a tecnologia tem sido utilizada como ferramenta para melhorar a organização do atendimento e otimizar o uso da estrutura existente.
Conforme a pasta, a ideia é que a tecnologia ajude a organizar melhor o sistema. Atualmente já são utilizadas ferramentas para envio de mensagens diretamente aos pacientes, além de confirmação de consultas e organização de agendas para comparecimento nos procedimentos.
Segundo a pasta, a iniciativa tenta reduzir um problema comum em serviços de saúde: a ausência de pacientes em procedimentos previamente agendados, o que acaba deixando vagas ociosas enquanto outras pessoas aguardam na fila.
O sistema deve conseguir conversar com os pacientes para sugerir datas e reorganizar agendamentos aproveitando para preencher e diminuir as vagas ociosas.
A secretaria também estuda ampliar o uso de inteligência artificial na gestão hospitalar, principalmente para monitorar a ocupação de leitos e acompanhar o tempo de internação de pacientes. A proposta ainda está em desenvolvimento, mas a expectativa é que a tecnologia contribua para decisões mais rápidas dentro das unidades de saúde.
Exames e remédios
A incorporação de ferramentas tecnológicas ocorre paralelamente à ampliação da capacidade de exames diagnósticos na rede municipal.
Um dos exemplos citados pela Secretaria Municipal da Saúde é o aumento do número de equipamentos utilizados para a realização de mamografias, exame fundamental para o rastreamento do câncer de mama. Fortaleza passou de sete para 13 mamógrafos disponíveis na rede pública municipal, um aumento de quase 100% nos equipamentos.
Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, a ampliação foi motivada, em parte, pela atualização das diretrizes de rastreamento da doença, que passaram a recomendar o exame para mulheres a partir dos 40 anos de idade.
A ampliação busca reduzir o tempo de espera para exames especializados. A secretaria trabalha com a meta de que procedimentos diagnósticos sejam realizados em até 60 dias, embora o prazo ainda dependa da demanda e da capacidade de atendimento disponível.
A preocupação da gestão em relação à doença nasce de números que apontam Fortaleza com as maiores médias de casos de câncer de mama. Dados do boletim epidemiológico da Secretaria Estadual de Saúde do Ceará (Sesa) da doença em outubro de 2025 mostram que a Capital tem a maior média de mortalidade anual da doença, com 23,6 óbitos a cada 100 mil habitantes.
A meta da gestão é que a fila que estava represada desde 2020, na espera de exames de mamografia seja normalizada até outubro deste ano com a aquisição dos equipamentos e os novos chamamentos para os procedimentos. De acordo com a SMS, a fila tinha aproximadamente 42 mil pessoas e com os novos aparelhos, foi reduzida para 9 mil pessoas à espera, além de outras 10 mil que entraram mais recentemente. A gestão tem feito a convocação dessas pessoas em paralelo às novas demandas.
A preocupação com a distribuição de medicamentos também está no escopo da administração municipal. No início de 2024, a gestão Evandro encontrou uma crise no sistema por falta de medicamentos. Dívidas milionárias com fornecedores impactavam diretamente a distribuição dos medicamentos.
O problema foi contornado em alguns meses e, atualmente, de acordo com a SMS, a distribuição dos remédios segue normalizada, inclusive com farmácias que estão sendo abertas aos finais de semana para disponibilizar medicamentos para a população.
Postos de saúde
Mesmo com o investimento em tecnologia, a Secretaria Municipal da Saúde afirma que o funcionamento da rede depende principalmente da estrutura da atenção primária, considerada a porta de entrada da população no sistema público.
Fortaleza conta atualmente com 134 postos de saúde, responsáveis pelo atendimento inicial da população, acompanhamento de doenças crônicas, vacinação, pré-natal e ações de prevenção.
Segundo dados da secretaria, cerca de 40 unidades estão em boas condições estruturais, enquanto outras passam por processos de reforma ou requalificação.
Atualmente, 18 postos de saúde estão em obras, e oito unidades já passaram por requalificação.
A secretaria afirma que a melhoria da estrutura das unidades básicas é considerada essencial para organizar o fluxo da rede de saúde. Uma vez que o primeiro contato direto do paciente com o sistema municipal é realizado pela atenção primária e uma vez que as ferramentas funcionem e o paciente seja atendido, não será necessário o encaminhamento para hospitais secundários e unidades de emergência.
Além das obras, a gestão municipal afirma ter convocado mais de mil profissionais para reforçar o atendimento em diferentes áreas da rede, incluindo hospitais, unidades básicas, serviços de saúde mental e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Entre as metas da secretaria está a ampliação das equipes da Estratégia Saúde da Família, responsáveis pelo acompanhamento de moradores em territórios específicos da cidade. Hoje, de acordo com a gestão municipal, são cerca de 600 equipes e a meta é chegar a aproximadamente 800 equipes.
Gestantes e
maternidades
Entre os projetos em desenvolvimento pela Secretaria Municipal da Saúde está a criação de um sistema de vinculação antecipada de gestantes às maternidades onde ocorrerá o parto.
A proposta prevê que, ainda durante o acompanhamento do pré-natal nos postos de saúde, a gestante já seja encaminhada para uma unidade hospitalar de referência. A intenção é evitar que mulheres em trabalho de parto precisem procurar diferentes hospitais até conseguir atendimento.
A pasta explica que muitas gestantes passam por mais de uma unidade até encontrar o acolhimento em uma maternidade adequada a sua demanda. A ideia é que desde o pré-natal já seja definido o hospital de apoio para a gestante.
O projeto também prevê ainda a criação de uma ambulância específica para transporte de gestantes em trabalho de parto, com o objetivo de melhorar a organização do fluxo entre maternidades de diferentes níveis de complexidade.
Atualmente, a demanda da gestão municipal também contempla pacientes da demanda estadual por conta da parceria entre gestões. Após o episódio emblemático do incêndio na maternidade do Hospital Geral Doutor César Cals (HGCC), em novembro de 2025, as maternidades municipais absorveram parte das demandas.
Por Hyago Felix
