“El Niño Godzilla” pode criar assimetria positiva para elétricas da Bolsa
Previsões climáticas indicam que o fenômeno El Niño deve ser intenso no final deste ano, e os ventos sopram em direção a um impacto profundo no setor elétrico brasileiro, segundo relatório do Goldman Sachs divulgado nesta sexta-feira (29).
De acordo com as projeções multi-modelo do ENOS (El Niño-Oscilação Sul) compiladas pelo Goldman Sachs, a probabilidade de um evento de forte intensidade é alta, podendo alcançar +3ºC em seu pico entre novembro e dezembro. Esse patamar representaria a maior cifra da série histórica de dados já registrada.
“Em nossa visão, um El Niño muito forte poderia apoiar um aumento nas temperaturas e na frequência de ondas de calor nos próximos 12 meses, levando potencialmente a cargas de energia mais elevadas (impulsionando a demanda para as distribuidoras de energia) e, consequentemente, a preços de energia mais altos e maior volatilidade intradia”, diz o relatório.
O banco aponta que o cenário cria uma assimetria positiva para as companhias de serviços públicos sob sua cobertura, mas o impacto pode variar conforme o perfil de contratação e a região de atuação de cada empresa.
Historicamente, o El Niño altera o regime de chuvas no Brasil de forma desigual. A análise do banco mostra um aumento real nas precipitações na região Sul, com a ENA (Energia Natural Afluente) bruta subindo 14,8 pontos percentuais acima da média. Por outro lado, as regiões Norte e Nordeste enfrentam redução de chuvas e maior risco de seca, com recuo médio de 6,2 pontos percentuais na ENA.
Para o Sudeste e Centro-Oeste, onde estão os principais reservatórios, os dados são inconclusivos, mas a mediana histórica sugere um viés de baixa de 5,2 pontos percentuais nas chuvas. Paralelamente, o calor intenso deve aumentar o consumo em todo o país, especialmente no Sudeste, que concentra a maior fatia da demanda nacional.
Impactos operacionais
No segmento de distribuição, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) estima um crescimento anual da demanda entre 4% e 6,5% para os próximos 12 meses. Caso o El Niño se materialize e apoie esses números, o Goldman Sachs projeta um potencial de alta de 2,5 a 3,5 pontos percentuais acima de suas próprias estimativas base.
Segundo os analistas, a sensibilidade do banco indica que cada 100 pontos-base de acréscimo na demanda no segundo semestre de 2026 e em 2027 pode inflar o Ebitda (Lucro antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) das distribuidoras em 0,5% e 1,1%, respectivamente.
Já para as geradoras, o calor extremo deve demandar um acionamento mais intenso de usinas térmicas para suprir os picos de consumo, subindo o nível da volatilidade de preços devido ao descasamento entre a oferta solar diurna e o pico intradia.
O preço da energia também reflete uma mudança técnica importante: desde janeiro de 2025, o sistema passou a usar um modelo com regras mais rígidas contra o risco de desabastecimento. Na prática, esse novo cálculo joga os preços para cima de forma preventiva, fazendo com que a energia fique mais cara mesmo quando os reservatórios estão cheios.
O Goldman Sachs projeta o preço de energia no submercado Sudeste/Centro-Oeste em R$ 270/MWh (Megawatt-hora) para 2026, R$ 240-260/MWh para o período de 2027 a 2029 e R$ 270/MWh no longo prazo, refletindo o custo marginal de expansão do sistema.
Além das projeções climáticas, o relatório consolidou a revisão dos modelos de avaliação das empresas após os resultados do primeiro trimestre de 2026 (1T26) que vieram majoritariamente sem grandes surpresas.
Os analistas reajustaram o Custo Médio Ponderado de Capital (WACC) real das companhias para cima, refletindo a revisão das taxas básicas de juros de longo prazo de sua equipe macroeconômica, que subiram para 9,75%.
