Economia

Desenrola para adimplentes: alívio financeiro ou problema adiado?

Novo programa amplia crédito para quem paga as contas em dia, mas especialistas defendem cautela para evitar um novo ciclo de endividamento.

Depois de criar um programa de renegociação de dívidas para inadimplentes, o governo federal avançou nesta semana para oferta de crédito aos consumidores que ainda conseguem manter suas contas em dia, mas estão no limite do orçamento. A nova etapa do Desenrola Brasil, pretende oferecer linhas mais baratas para trabalhadores informais, beneficiários do Fies e consumidores considerados adimplentes.

Especialistas ouvidos pelo InfoMoney dizem que a proposta é bem-vinda porque poderá interromper o ciclo de endividamento que tem levado milhões de famílias para uma situação limite. O consenso, porém, vem acompanhado de um alerta para que tudo seja feito com planejamento financeiro e análise cuidadosa das condições oferecidas, uma vez que o programa pode apenas transferir o problema para o futuro.

A preocupação não é pequena, uma vez que o Brasil convive atualmente com mais de 80% das famílias endividadas. Muitas delas ainda estão conseguindo honrar seus compromissos financeiros, mas o orçamento está cada vez mais apertado pelo custo do crédito e pelo comprometimento da renda.

Para a economista e conselheira do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), Natalie Verndl, a principal virtude do programa está justamente em atuar antes do colapso financeiro do consumidor.

“Estamos falando de pessoas que ainda pagam suas contas, mas que enfrentam forte pressão financeira. Em muitos casos, elas utilizam linhas de crédito pessoal com juros bastante elevados. A possibilidade de trocar uma dívida mais cara por outra mais barata pode ser importante para evitar que esse consumidor passe da condição de endividado para a de inadimplente”, afirma.

Segundo ela, o benefício, no entanto, não é automático. “O consumidor precisa entender que não se trata de renda extra nem de perdão da dívida. Trata-se de uma nova operação de crédito, que deve ser analisada considerando taxa de juros, custo efetivo total, prazo e valor final a ser pago.”

Mudança de estratégia

Para o advogado especialista em Direito do Consumidor Stefano Ribeiro Ferri, o programa representa uma mudança importante na forma como o Estado trata o problema do endividamento. “O programa pode ampliar o acesso ao crédito em condições mais favoráveis, mas não enfrenta as causas estruturais do endividamento das famílias brasileiras. Ele trata os efeitos do problema, mas não necessariamente sua origem”, afirma.

Segundo Ferri, fatores como inflação, perda de renda, juros elevados, baixa educação financeira e concessão inadequada de crédito continuam sendo os principais responsáveis pelo crescimento do endividamento no país. “A verdadeira prevenção do superendividamento exige políticas mais amplas, incluindo educação financeira, crédito responsável e maior transparência nas contratações”, acrescenta.

Anna França

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